sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

UMA FOLHA

Era uma ventosa madrugada de Outono
E eu estava sem sono
Vesti-me lentamente
E fui dar uma volta ao parque calmamente

O parque pequeno era
Poucas árvores e pouca erva
Mas no seu centro havia uma lagoa
Que de um banco se tinha uma vista boa

Sentei-me no banco a contemplar
As árvores desnudas e o céu nublado
E ali a descansar
Passei ainda um longo bocado

Passa sem aviso uma forte rajada
E leva uma fraca folha maltratada
Era uma folha de árvore velha e cansada
Um pouco castanha mas quase toda amarelada

Ela sobre agora o lago repousa
Enquanto o vento por cima dela passa
Flutua pela sua vida
Que certamente está perdida

Um pouco de tempo passou
E apesar do que com ela o vento brincou
A folha resistiu
De voltar à sua árvore não desistiu

“Porque não te deixas afundar?”
A ela lhe fui perguntar
“Porque não aceitas a tua sorte?
“Porque tentas impedir a tua morte?”

Mas ela não me respondeu
Porque era uma folha, que burro sou eu!
Mas por um segundo ela me pareceu compreender
Pois acho que a vi a tremer…

A folha, com toda sua força de folha, nadava
E eu simplesmente a olhava
Ela parecia que ia padecer
Mas acabava sempre por à superfície reaparecer

A certa altura, um pato lhe embate
E quase que ela se parte
Mas mesmo assim
A folha não declarou o seu fim

Como uma folha pode ter tanto poder?
Como pode ela tudo isto sofrer?
Mas eu acabando isto de pensar
A folha começa a fraquejar

A água da lagoa a agarra
E ao fundo leva aquela folha com garra
Para que no fundo da lagoa ela possa dormir
Sem se esforçar para ao seu destino fugir

Eu sei que era uma coisa inútil
Mas sinto que a minha alma com ela afundou
Depois de todo aquele esforço fútil
À sua árvore não voltou

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LAGRIMAS

Lagrimas me vêm aos olhos.Esforço-me para que não
rolem na face, e todos vejam a minha tristeza.
Não quero que saibam da minha decepção.
Antes, todos me viam feliz, rindo por todos os cantos.
A alegria transbordava nos meus gestos, pelo meu olhar,
nos meus muito sorrisos.Hoje, fujo de todos. Não quero
que me vejam, pois o sorriso fugiu dos meus lábios, a
tristeza inundou meu coração. A fonte da minha alegria
e foi. Você, que até pouco encantava minha vida, agora, é
a razão do meu desencanto. Por que você se foi e deixou
este grande vazio no meu peito? Uma frieza tão intensa que

congelou meu coração, endureceu o meu rosto
e emudeceu a minha voz. Sem forças para responder
gualquer coisa, ouvi
perplexa a dura sentença e contemplei atônica a sua ida.
Sou um vulto agora, a perambular pelos cantos, tentando
compreender a crueldade do seu gesto.


REFLEXÇÃO

A VIDA PRESENTE

Não serei o poeta de um mundo caduco.

Também não cantarei o mundo futuro.

Estou preso à vida.

Olho meus companheiros, nutrem esperanças.

O presente é tão grande, não nos afastemos.

Vamos de mãos dadas.



Não serei cantor de uma mulher, de uma história,

não direi os suspiros ao anoitecer,

não fugirei para as ilhas,

nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria: o tempo presente,

os homens presentes, a vida presente.

UM SOPRO DE VIDA


Não aguento muito tempo um sentimento
porque passo a ter angústia
e meu pensamento fica ocupado com o sentimento
e eu me desvencilho dele de qualquer jeito
para ganhar de novo a minha liberdade de espírito.

Sou livre para sentir. Quero ser livre para raciocinar.
Aspiro a uma fusão de corpo e alma.

Não consigo compreender para os outros.

Só na desordem de meus sentimentos é que compreendo
para mim mesma e é tão incompreensível o que eu sinto
que me calo e medito sobre o nada.